Trabalho dos pés e hipersensibilidade

É sobre os pés que assentamos todo o peso do nosso corpo, quando estamos em pé, claro. Ainda que a carga de todo o corpo vá sendo dissipada ao longo do corpo, há uma quantidade de massa que se apoia sobre os pés e estes, em contacto como chão, recebem a reação do solo ao apoio. Em Pilates, e na maioria dos contexto de exercício funcional/orgânico, com vista ao bem estar e saúde em geral, há uma ênfase na importância do trabalho dos pés. Em Pilates temos uma série de exercício e de aparelhos que privilegiam o trabalho dos pés, como o foot corrector, a barra de pés do reformer e todas as barras de apoio dos pés das várias cadeiras, por exemplo.
Apesar desta importância toda, só agora comecei a trabalhar os pés com a mesma ênfase compor exemplo, trabalho a coluna vertebral. O trigger para esta meu "despertar" para os pés foi o livro do Philip Beach (Muscles and Meridians), bem como o seu video no fusionpilatesedu.com, onde ele explica e exemplifica, de facto, o trabalho com os pés. Ele fala muito do efeito autorregulador (a que ele se refere como Tunning) de algumas posturas de repouso de base onde os pés são visados. Para conseguir algumas daquelas posturas é necessário fazer algum trabalho de adaptação dos pés, ou de readaptação uma vez que se pretende readquirir competências com que nascemos e que vão sendo perdidas devido aos estilos de vida modernos. Ele preconiza o "amolecimento" de todos os tecidos plantares e do pés em geral, usando automassagem manual e pressão sobre superfícies irregulares. Aqui tenho ilustrar melhor o que ele diz com superfícies irregulares. Ele preconiza, e usa, chão feito de pedras irregulares coladas onde devemos andar cerca de 20 minutos todos os dias, sem calçado. Ele diz que fez o próprio "chão" numa parte da casa que é muito usada, usando pedras coladas, one inclusivamente tem algumas arestas marcadas a tinta vermelha porque podem ser cortantes se forem calcadas com muita força. Quer isto dizer que ele fala de um trabalho bastante profundo e mesmo agressivo para conseguir modificar e estimular os tecidos do pé.
Eu comecei a experimentar a automassagem aos pés, cerca de 20 minutos, usando as mãos. trabalhei um dos pés com bastante força, torcendo-o, massajando com os nós dos dedos da mão, sentando-me sobre os dedos dos pés em várias orientações, etc. No final fiquei em pé e a diferença e entre os dois pés foi incrível! Eu estava à espera de diferença mas o que senti foi muito além de simples diferença. Sentia o pé trabalhado, suportado e vivo, como se as estruturas de suporte, os tecidos, estivessem mais vivos e realmente a fazer trabalho em vez de estarem apenas a segurar a estrutura como cabos.
Tenho feito este trabalho aos pés todos os dias um pouco e ao fim de três dias notei algo mais. Eu sempre tive muita sensibilidade ao toque, nos pés. Andar sobre uma superfície rugosa traz-me sempre uma sensação de quase pânico. Não é bem dor, é mais uma reação extrema à pressão. O mesmo acontece com massagens aos pés que me deixa sempre nervoso e retraído. Depois deste trabalho que tenho feito notei que a minha hipersensibilidade nos pés está muito melhor, como se os meus pés tivessem deixado de estar tão reativos. Também noto que ao toque, os pés estão muito mais moles, diria mais suaves.
O trabalho que fazemos em Pilates, pelo menos o que se aprende hoje em dia, sofre pela hipersensibilidade em que a maioria das pessoas vive hoje em dia, ou a hiper-reatividade. Por esta razão, todas as técnicas de corpo aplicadas, todos os materiais que usamos para trabalhar o corpo, tendem a ser suavizados, diminuindo a intensidade do estímulo que é dado. A eficácia dos estímulos também é diminuída, desta forma. A barra dos pés no reformer passou a ser almofadada de forma a não sentirmos mais o contacto com a superfície rígida do metal. A "deformação" pretendida pelo contacto com o ferro passou a ser absorvida pelo material que recobre a barra em vez de ser absorvida pelos tecidos da planta do pé. Algumas barras das cadeiras passaram, também, a ser almofadadas. Se pensarmos no foot corrector original, podemos perceber que a força das suas molas e a ausência de cobertura do metal, visavam massajar, de facto, os tecidos da planta do pé.
Tudo isto para reforçar a necessidade que agora sinto de trabalhar, com "vontade", com força, os pés dos meus clientes. Claro que é necessário perceber qual a extensão da pressão que diferentes pessoas conseguem suportar de início, sendo necessário diminuir o número de molas no footwork, por exemplo, ou a pressão da massagem que possamos fazer nos pés. É importante fazer um trabalho de sensibilização do cliente no sentido de perceber a sua hipersensibilidade e a possibilidade de a ultrapassar.
Este trabalho nos pés tem, como é evidente, implicações no alinhamento de tudo o que se encontre num nível acima, todo o resto do corpo... Por isso mesmo é importante ir integrando, em termos de sensações e perceção, o trabalho dos pés com caminhada, footwork, etc, tudo o que leve o peso do corpo sobre os pés.


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