Notas soltas de uma ideia que quer encarnar
Começou pela descoberta dos ombros, da possibilidade de trabalhar, sustentar, mover, os ombros a partir dos tecidos da frente do peito. Não sei de onde veio esta ideia que eu sempre tive de que devemos "pensar" nos músculos das costas quando queremos usar os ombros. Nem eu tinha bem consciência deste meu pré-conceito, desta minha crença, mas agora me dou conta que era uma "verdade absoluta". Tudo acontecia nas costas, ele eram dorsais, trapézios, romboides, coifa dos rotadores... e descobri a possibilidade de mover os ombros, todo o complexo omoplata, braço e clavícula, a partir dos tecidos da frente do tronco, e assim uma ideia se foi formando sobre o corpo. Outras ideias (se calhar também pré-conceitos que irei revendo com o tempo) se foram acoplando e a forma-ideia foi crescendo. Aqui estão partes soltas dispostas de forma.
- A cintura escapular articula-se no tronco, com uma verdadeira articulação - osso, com osso e cápsula articular, na junção da clavícula com o esterno. Quando realizo movimento do braço ou do ombro a partir desta articulação, quando tenho essa consciência, a sensação do movimento é bastante diferente de quando movimento o braço a partir do ombro.
- Este movimento na cintura escapular acontece em espelho com o movimento dos adutores anteriores (flexores) ao nível da coxo-femural, ao nível da cintura pélvica.
- Se pensar no tronco como um todo, balizado pelas duas cinturas, posso pensar na acção destas cinturas como suportes-pilares da extensão do tronco, como os pilares de uma ponte. O tabuleiro da ponte, a extensão entre as duas cinturas, está livre para ter alguma mobilidade porque tem os suportes nas extremidades. Se o "tabuleiro" for rígido há maior probabilidade de partir, caso haja um impacto maior na estrutura.
- Quando trabalho os músculos da frente da cintura escapular mais próximos do centro do corpo, próximos do esterno, peitorais, escalenos, (há mais?) para mobilizar o complexo do ombro, estou a enfatizar a ação concêntrica destes. Os tecidos antagonistas, toda a musculatura das costas ao nível da cintura escapular, vai trabalhar de forma excêntrica, vai ter mais capacidade de exercer a sua função de sustentação (antigravítica) com mobilidade. Esta percepção é notória no trabalho com kettlebell, quando enfatizo o trabalho a partir do esterno em vez do ombro. Aqui há mais um elemento que me parece importante. Quando o trabalho extensão/adução da cintura escapular se centra ao nível do ombro, da escapulo-umeral, estamos a sobrecarregar os antagonistas a este nível, a coifa dos rotadores, aí que este nível do ombro seja tantas vezes problemático com trigger points e contraturas e inflamações.
- Todo o trabalho de sustentação do corpo na vertical deve ser sustentado a vários níveis de altura para distribuir as tensões criadas pela ação da gravidade e dos momentos de rotação. O corpo humano como um pêndulo invertido, na marcha vertical. A sustentação superior é feita ao nível da frente dos ombros, na sua ligação à frente do tórax. Um port de bras em segunda posição de ballet é sustentado à frente do peito e não atrás, nas costas! Exemplo sentido no ped-a-pole, no side splite reformer, na long stretch series, etc...e há tantos outros exemplos em Pilates.
- A sustentação superior corresponde ao nível do chakra cardíaco e a sustentação inferior corresponde ao chakra de base. A importância energética destes dois centros no equilíbrio do ser e na disponibilização dos outros centros energéticos intermédios a estes dois que nos permitem a relação connosco, com os outros e com o exterior de forma saudável.
- O facto do desenvolvimento ontogénico ser feito a partir da mobilização primeiro dos membros inferiores e superiores sobre o tronco ao nível, respetivamente, das cinturas pélvica e escapular. A partir destas duas ligações começa a desenvolver-se a força no centro do tronco, mas sempre em relação com estas cinturas, nunca em isolamento. Primeiro há um ganho de "força" ao nível das cinturas, que permite sustentar os membros imferiores e superiores, e depois desenvolve-se a capacidade de mobilizar o tronco, de flectir, de rodar e de extender. Não sei se no desenvolvimento motor começamos por desenvolver os flexores dos membros superiores e inferiores e só depois desenvolvemos os extensores, mas dava-me jeito que assim fosse...
- Imagino a importância que numa postura quadrúpede, de onde evoluímos, os flexores-adutores das duas cinturas, pélvica e escapular, têm na sustentação e movimentação do corpo. Esta importância mantém-se e expressa-se de outra forma na postura bípede.
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